Afinal o que é que Trump partilhou com os russos e porque é que isso importa?

Num encontro com dois representantes do governo de Vladimir Putin na semana passada, Trump partilhou informações confidenciais sobre um plano do Daesh relacionado com o uso de portáteis a bordo de voos comerciais. O que fez não é ilegal mas vem denegrir as relações dos EUA com os seus aliados e alimentar as suspeitas de conluio entre a Casa Branca e o Kremlin

Há quatro meses, uma semana antes de Donald Trump tomar posse como 45.º Presidente dos EUA, uma fonte revelou ao jornal israelita “Yedioth Ahronoth” que as secretas americanas tinham acabado de avisar Israel para “ter cuidado”. Surpreendida e preocupada com a eleição do empresário populista, em meados de janeiro a comunidade de espionagem organizou uma reunião secreta com membros da Mossad para lhes explicar como receava que quaisquer informações confidenciais partilhadas pelo Estado hebraico com a nova administração e com o seu Conselho de Segurança Nacional (CSN) pudessem chegar aos russos por intermédio de Trump — e ao Irão inimigo de Israel por intermédio dos russos.

Na altura, a notícia ganhou pouca tração, mas isso mudou esta terça-feira, depois de o “Washington Post” ter revelado segunda-feira à noite que Trump partilhou “informações altamente confidenciais” com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, e com o embaixador da Rússia em Washington, Sergei Kislyak, sobre um plano de ataque do Daesh relacionado com o uso de portáteis a bordo de voos comerciais.

Isto aconteceu na quarta-feira passada, um dia depois de Trump ter despedido o diretor do FBI, James Comey, quando este tinha acabado de pedir ao Departamento de Justiça mais fundos e mais pessoal para acelerar a investigação ao alegado conluio entre a equipa do Presidente e o governo de Vladimir Putin, com o intuito de influenciar o resultado das presidenciais.


A seguir ao “Washington Post”, vários outros jornais citaram as suas próprias fontes a relatarem como Trump ignorou a “etiqueta de espionagem” e passou por cima de um aliado para se “vangloriar” aos russos sobre a sua forma de combater o terrorismo. O que foi partilhado por Trump, avançou uma fonte anónima ao “BuzzFeed”, “é muito pior do que aquilo que já foi relatado” pelos media. “Na verdade”, tinha avançado o “Washington Post”, “o aliado em causa tem avisado repetidamente as autoridades norte-americanas de que vai cortar-lhes o acesso a informações confidenciais desta natureza se estas forem partilhadas de forma demasiado abrangente; neste caso, há receios de que a Rússia seja capaz de determinar com exatidão como é que a informação foi recolhida e consiga assim perturbar os esforços de espionagem” do país que forneceu os dados aos EUA e que terá conhecimento privilegiado sobre as estruturas e o modus operandi do Daesh.

Há dúvidas quanto à legalidade de inúmeras ações do Presidente Trump desde que tomou posse, entre elas aceitar prendas de governos estrangeiros (em violação da chamada ‘cláusula de emolumentos’) ou despedir Comey para impedir o avanço da investigação que mais ameaças representa ao seu poderio. Contudo, no caso dos dados revelados a Lavrov e Kislyak, não parece ter havido qualquer ilegalidade; o Presidente dos EUA tem poderes para “desclassificar” dados confidenciais quando quer e a quem quer. E foi a isso que Trump se agarrou esta terça-feira de manhã quando foi ao Twitter defender-se — ali escreveu que tem “o direito absoluto” de partilhar o que quiser, neste caso e do seu ponto de vista “factos relacionados com terrorismo e segurança na aviação”; também explicou que quis partilhá-los com os russos por “razões humanitárias” e porque quer “que a Rússia reforce a sua luta contra o ISIS [Daesh] e o terrorismo”.



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