A revista Claridade avulta-se, pois, com tal nitidez na historiografia literária cabo-verdiana e mesmo internacional, que confirma por si só e convence por mérito próprio a razão da sua enorme dimensão e a justificação do tributo que hoje nos reúne nesta Universidade do Mindelo e nesta ilha de São Vicente. Aquelas nove edições da revista, de 1936 a 1960, a partir do Mindelo, não só mudaram o mundo cabo-verdiano, como o inscreveram no mundo mais ao largo. E, perante este património material e imaterial de grande qualidade e alcance, reiteramos que temos em mãos um verdadeiro tesouro nacional”, sublinhou.
O legado da revista Claridade foi reforçado com o lançamento da Cátedra Claridade, pela Università degli Studi Internazionali di Roma UNINT, numa parceria com a Universidade do Mindelo e a editora Rosa de Porcelana.
Mariagrazia Russo, reitora da Università degli Studi Internazionali di Roma (UNINT), sublinhou o papel histórico da revista como um marco estruturante da identidade nacional cabo-verdiana.
“Uma revista que foi mais do que uma grande publicação literária, foi um verdadeiro marco fundacional da consciência cultural cabo-verdiana. Claridade abriu caminhos, caminhos firmes, enraizados na realidade concreta das ilhas e lançou as bases de uma profunda emancipação cultural, social e política. Foi através da palavra escrita que se caldeou uma identidade mais autónoma e soberana, construída em torno da cabo-verdianidade, analisando com lucidez as complexas e, por vezes, dramáticas condições económicas e sociais do país”, assegurou.
Segundo Mariagrazia Russo, o espaço académico terá como objectivo aproximar estudantes italianos da realidade cultural de Cabo Verde, “promovendo o intercâmbio e o diálogo intercultural”.
A programação incluiu também o lançamento do livro “Para uma História das Ideias Cabo-verdianas”, de Manuel Brito-Semedo.
A obra, segundo o autor, apresenta uma perspectiva de como Cabo Verde se pensa a si próprio.
“Este livro quis dialogar com essa herança, não para repetir, mas para interrogar. Ler o nosso percurso intelectual como sucessão de regimes da palavra é perguntar que uso fazemos hoje da palavra, que responsabilidade lhe atribuímos e que silêncio aceitamos. Apresentá-lo aqui, neste ano simbólico, é regressar ao lugar onde a palavra aprendeu primeiro a pensar antes de mandar. Num tempo dominado pelo ruído e pela pressa, talvez essa lição continue a ser a mais actual”, defendeu.
