Bilkiça Câmara, estudante guineense na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, descreveu à agência Lusa uma realidade onde o sucesso académico é, muitas vezes, ensombrado por uma luta pela sobrevivência e regularização documental que afecta a maioria dos alunos internacionais, nomeadamente dos PALOP.
“Não é uma ou duas ou três pessoas que passam por isso, é a grande maioria dos estudantes que ingressam através do regime especial”, disse, explicando que a demora no processo de emissão de vistos faz com que muitos cheguem a Portugal em Dezembro ou Março, quando os semestres já estão praticamente concluídos.
Este obstáculo é transversal a estudantes de outras nacionalidades da lusofonia.
Beatriz Pires, antiga aluna da Faculdade de Letras que veio de São Paulo, Brasil, disse que a documentação foi o maior entrave, ficando cerca de seis meses sem conseguir estudar.
Segundo Bilkiça Câmara, os alunos chegam tão atrasados que não conseguem fazer o primeiro ano por terem muitas unidades curriculares pendentes, e muitos dos que chegam em março, a meio do segundo semestre, desistem.
Esta chegada tardia gera um “desânimo total” e ainda estados de saúde mental “completamente destrutivos”, diz a estudante guineense que contou que acompanha colegas a consultas de psicologia.
Céline Machaieie, estudante moçambicana no Instituto Superior Técnico, relatou que o seu visto demorou quase dois meses, resultando num primeiro semestre “praticamente perdido”.
“Em vários momentos até já pensei em desistir e voltar para o meu país”, contou.
