“Existiam dois Cabo Verde: Cabo Verde dos discursos oficiais e Cabo Verde real. Cabo Verde apresentado nas estatísticas e Cabo Verde vivido por quem acorda todos os dias sem saber se tinha dinheiro suficiente para dar aos filhos comida”, declarou.
Francisco Carvalho afirmou que, durante a última década, foram apresentados indicadores de crescimento e prosperidade, mas que muitas famílias continuaram a enfrentar dificuldades no acesso a serviços essenciais.
“Falou-se de crescimento, enquanto milhares de jovens estão a preparar as malas para deixar o país. Falou-se de prosperidade, enquanto muitas famílias continuam sem conseguir pagar uma consulta médica, comprar medicamentos, pagar a propina do filho ou garantir uma habitação digna”, disse.
O Primeiro-ministro considerou que há um afastamento entre as prioridades definidas pelas instituições públicas e as necessidades da população.
“Há um desencontro entre prioridades de governação e sonhos, anseios e necessidades dos cabo-verdianos”, afirmou.
Durante a intervenção, Francisco Carvalho referiu aos dados que indicam que 66% dos jovens cabo-verdianos têm como principal sonho emigrar e afirmou que representa também uma perda de capacidades para o país, considerando que muitos dos que deixam Cabo Verde são pessoas com formação, iniciativa e potencial de inovação.
Francisco Carvalho referiu ainda consequências demográficas da emigração, nomeadamente o envelhecimento de algumas ilhas e a perda de talentos.
“Não se fala de ilhas que estão a ficar cada vez mais envelhecidas. Não se fala de talentos. Não se fala de cabo-verdianos que não se consegue conservar”, discursou.
Na mesma intervenção, Francisco Carvalho abordou a situação financeira do Estado e reafirmou que o Governo encontrou uma derrapagem orçamental superior a oito mil milhões de escudos entre o valor previsto no Orçamento do Estado para 2026 e os compromissos identificados em Junho.
“Não é uma simples diferença contabilística, nem um desvio técnico. É uma derrapagem orçamental de enorme gravidade”, acusou.
