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João Domingos, CEO CVTelecom: “Precisamos de ter mais cabos amarrados em Cabo Verde”

João Domingos, CEO CVTelecom: “Precisamos de ter mais cabos amarrados em Cabo Verde”

De saída, depois de estar desde 2020 à frente da CVTelecom, João Domingos faz ao Expresso das Ilhas um balanço do mandato e fala das tecnologias emergentes e do impacto que poderão ter no país.

Ao fim destes seis anos, que CVTelecom deixa à próxima administração?

Quando entramos para o Conselho de Administração, como Presidente do Conselho de Administração e Presidente da Comissão Executiva em 2020, já percebemos uma empresa em crescimento certo, em transformação, mas conseguimos implementar uma dinâmica maior e acelerar, sobretudo, os negócios da empresa. Na altura, estávamos com um volume de negócios à volta de 4 milhões e 500 mil contos (4,5 milhões de contos. Estamos a deixar uma empresa com um volume de negócios a beirar os 7 milhões de contos. Portanto, um crescimento superior a 50%. O volume de investimentos também feito durante esses anos rondam os 12 milhões de contos. Um volume considerável de investimentos, sobretudo em infra-estruturas da rede para melhor servir o mercado cabo-verdiano e também para conectar o país com o mundo. Fizemos esse trabalho afincadamente porque compreendemos também o posicionamento estratégico da empresa no contexto económico cabo-verdiano. Sobretudo num momento em que o digital é praticamente o alicerce de tudo. E acreditamos que os próximos gestores que tomarão o destino da empresa hão-de saber dar continuidade a isso, melhorando ainda aquilo que seguramente há-que melhorar e pensar sobretudo com uma perspectiva futurista.

Em termos de investimento, qual considera o mais significativo ou mais significativos?

Eu diria que o investimento na disponibilização da internet de banda larga, os dois tipos de investimentos. Primeiro, investimento para o cliente e depois investimento nos cabos submarinos inter-ilhas e internacional. O investimento no EllaLink é um dos maiores e melhores investimentos que a Cabo Verde Telecom conseguiu fazer ao longo da sua história, porque o cabo submarino EllaLink é um cabo moderno que permite a Cabo Verde entrar na arena do digital internacional. Nós estávamos amarrados ao WACS, que é um cabo já com alguns anos de vida e que não oferece todas as condições que o EllaLink oferece. O EllaLink já nos proporciona ter imagem em 3D, lançar o 5G, que já temos uma experiência aqui em Cabo Verde feita pela Cabo Verde Telecom e entrar nos jogos e em outras indústrias de telecomunicações e do digital. Acredito que esse é um dos maiores investimentos que fizemos, mas também fizemos um investimento no capital humano importante. Conseguimos modernizar e renovar o nosso capital humano com recrutamentos e com formações para estarmos em linha com aquilo que é o desafio do estado da arte.

Qual será o rumo que terá o sector, o futuro, para onde é que poderemos apontar?

Bom, não gostaria de falar do sector para não estarmos a sobrepormo-nos à competência dos outros, embora tenhamos um sentimento daquilo que poderá ser o sector em Cabo Verde. E temos essa consciência de que com os meios e a realidade que temos aqui neste arquipélago temos necessariamente que nos inserir no mercado internacional para podermos ter o retorno sobre os investimentos que o país demanda. Mas a primeira coisa é fazer do Cabo Verde efectivamente um hub do negócio internacional no digital. E isto já está a desenhar-se. Já temos três cabos amarrados aqui em Cabo Verde. Temos várias demandas que eu não vou aqui elencar, porque ainda está em fase de trabalho. Mas temos pelo menos mais três potenciais investidores a procurar Cabo Verde para a amarração dos respectivos cabos internacionais. E eu creio que essa aposta permite-nos ultrapassar aquilo que é o constrangimento associado à economia de escala, uma economia de dimensão muito reduzida e que não garante que os investimentos feitos tenham retorno só através do consumo nacional. Temos que procurar, portanto, o mercado internacional para fazer os negócios, aproveitando dois factores importantes. A localização geoestratégica de Cabo Verde no Atlântico Médio, que, em virtude da redução da latência que proporciona, permite um rápido acesso aos três continentes. E também aproveitar aquilo que é o nosso grande capital estratégico, que é a paz e a estabilidade aqui em Cabo Verde.

Há aqui duas questões que gostava de ouvir a sua opinião, que têm a ver com a soberania digital e a resiliência das redes. Há debate suficiente sobre isso em Cabo Verde ou precisamos começar a falar mais sobre essas questões?

Nós começamos a debater isso há algum tempo, mas precisamos fazer muito mais, porque efectivamente o digital não pode ser pensado fora do contexto da cibersegurança. E esse desiderato, esse desafio, não é exclusivo ao nosso país, é um desafio à escala mundial, porque o digital se tornou um negócio importante, estratégico e tudo o que é importante tem sempre necessidade de se fazer acompanhar de medidas de segurança redobradas. E Cabo Verde tem de trabalhar nisso, ainda com algum atraso em relação àquilo que são os desafios emergentes noutras geografias. Mas já temos legislação suficiente para isso. Já começamos a trabalhar na implementação de medidas, mas ainda estamos numa fase que eu diria não consentânea com aquilo que é a ambição que o país assume e tem. Neste momento, portanto, conjuntamente com os demais players do sector aqui em Cabo Verde, tanto do sector público como privado, precisamos de colocar sobre a mesa os próximos passos em termos de data e de números. A resiliência da rede não se consegue sem trabalhar na temática da cibersegurança. No caso da Cabo Verde Telecom, como sabe, fomos objecto de um ataque praticamente único de tal envergadura em Cabo Verde. A partir daí, nós passamos a trabalhar com prestadores de serviços até que consigamos internalizar parcialmente as competências nessa matéria. Nunca é possível internalizar integralmente as competências associadas à questão da cibersegurança. É preciso trabalhar com parceiros externos e trabalhar até em rede. Entendemos que Cabo Verde pode ganhar muito com o digital se conseguimos garantir a segurança dos potenciais investidores em ter os seus dados aqui em Cabo Verde e se nós conseguimos também diversificar a rota de comunicação internacional que neste momento ainda estamos apenas com três cabos, precisamos de ter mais cabos amarrados em Cabo Verde.

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